Rio de Janeiro, 23 de Maio de 2019

Transar, nunca. Jamais!

Sabe qual a única maneira de os adolescentes não se contaminarem com doenças sexualmente transmissíveis, não engravidarem (os meninos) e nem ficarem grávidas (as meninas)?

A abstinência sexual. Em português claro: não transando nunca, jamais.

Os parágrafos acima contêm uma verdade e um problema, pelo menos nos Estados Unidos. A verdade: não há médico do mundo que vá negar que o único método anticoncepcional e anti-Aids 100% seguro é a ausência da relação sexual. O problema: o governo norte-americano, sob o comando do republicano George W. Bush, quer que isso seja lei.

É verdade. Proposta pela parte mais conservadora do conservador Partido Republicano, uma medida que repousa no Congresso dos EUA limita o fornecimento de verbas federais apenas a instituições que preguem a abstinência sexual para adolescentes.

A lei afetaria todos os órgãos públicos e ONGs que lidam com a difusão de educação sexual -ou seja, de postos de saúde a entidades estudantis, passando por centros de arte etc. O texto é claro: quem defende o uso de camisinha e de pílulas anticoncepcionais como política sexual tem a verba cortada.

A cruzada é encabeçada pelo ultraconservador secretário da Justiça norte-americano, John Ashcroft, e conta com o apoio da direita do partido Republicano e com a chancela do presidente Bush, ele próprio um defensor da abstinência sexual teen.

Enquanto a medida não é aprovada, o governo reservou só neste ano uma verba de quase US$ 30 milhões em forma de subsídios, destinados a centros de saúde, escolas e igrejas que realizem reuniões com o objetivo de convencer adolescentes a não terem relações sexuais antes do casamento. No ano que vem, a verba federal aumenta para US$ 135 milhões.

Mais: na primeira sessão especial sobre a infância da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada neste ano, o secretário da Saúde norte-americano, Tommy Thomson, batalhou para que fossem retirados do documento final do encontro referências a programas de educação sexual e de planejamento familiar.

Como bem disse o presidente Bush, a abstinência é a única forma segura de evitar a transmissão de doenças sexuais, a gravidez precoce e as dificuldades sociais e pessoais geradas pelo sexo fora do casamento, afirmou.

De fato, o sexo adolescente é um problema não só social como econômico nos EUA, que, com seus 270 milhões de habitantes, detêm o recorde de gravidez teen no mundo, 1 milhão de meninas por ano, segundo a organização Planned Parenthood.

Além disso, 25% das doenças sexualmente transmissíveis afetam adolescentes -ou seja, de cada quatro americanos que ficam doentes por conta de sua vida sexual, um deles é menor de idade. Por fim, de acordo com o Brookings Institute, a gravidez adolescente custa US$ 7 bilhões por ano aos cofres públicos.

Tudo isso é verdade, mas o programa defendido pelo governo, seja na coerção da medida, seja no custeio de instituições conservadoras, não funciona, diz o médico Michael Carrera, fundador da conceituada Childrens Aid Society, de Nova York, que lida com o tema há 18 anos.

O motivo? Porque eles mentem para os adolescentes dizendo que qualquer contato sexual vai devastar suas vidas e que anticoncepcionais não funcionam, acredita Carrera. E não é com mentira que você vai convencer os adolescentes a fazer nada.

Para pastor, ex-virgem Britney ainda pode ser perdoada
Britney Spears, 20, está numa enrascada. Há algumas semanas, o pastor da igreja que ela e sua família frequentavam em sua cidade-natal viu uma entrevista em que a musa pop teen sugere que chegou às vias de fato com seu ex-namorado, o também cantor Justin Timberlake.

Eu preferiria que ela usasse mais roupas do que usa e que tivesse esperado para ter relação sexual só depois do casamento, disse Bob Sheffield, da Convenção Batista Sulista, que lidera a seção de Louisiana do movimento de abstinência teen. Mas Britney pode ser perdoada.

Até agora, a cantora não respondeu e é bem provável que não responda, já que Spears está tentando recuperar seu público justamente livrando-se da imagem de adolescente provocadora e investindo mais na de mulher provocante, em todos os sentidos que a roupa nova carrega.

Sem querer, no entanto, o religioso revelou uma face pouco divulgada do movimento (além da que em quase 90% dos casos está ligada a alguma igreja): a abstinência teen pode ser praticada mesmo por aqueles que já transaram, mas se arrependeram.

É o que defendem, por exemplo, os sites de duas das maiores ONGs do gênero nos Estados Unidos, Worth the Wait (www.worththewait.org) e National Abstinence Clearinghouse.(www.abstinen ce.net). A primeira, cujo nome quer dizer vale esperar, em inglês, chega mesmo a trazer uma lista de dicas para quem acha que não vai conseguir aguentar a pressão.

Intitulado Habilidade em Recusar, a tabela encena alguns diálogos possíveis entre o/a conquistador/a e o/abstinente.

Por exemplo:

Conquistador/a - Eu fiz o teste de HIV e deu negativo.
Abstinente - Que bom que você foi testado/a, mas eu estou procurando por alguém que não precise fazer isso pois está esperando, como eu.

Ou:

Conquistador/a - Não tem problema, eu tenho uma camisinha.
Abstinente - Camisinhas não são 100% efetivas contra doenças sexualmente transmissíveis e gravidez e dão 0% de proteção contra o dano emocional que eu poderia sofrer.

Foram o suficiente para convencer Lauren, 15. Acho que esperar para transar é legal. Sexo é muito pessoal para fazer com qualquer um. Além disso, por que arriscar perder tudo o que eu quero fazer na minha vida? Esperar não chega nem perto da dificuldade de ter de lidar com uma doença ou ter um bebê!.
 
Especialistas brasileiros condenam política dos EUA
Não é apenas nos Estados Unidos que a abstinência sexual encontra adeptos entre adolescentes. Na semana passada, o Folhateen publicou uma carta do leitor Rafael Marques da Silva, 18, um vestibulando de Limeira que louvava a castidade, inclusive em relação à masturbação.

Depois de receber diversas cartas criticando a posição de Rafael (veja a de Fernando Gazzaneo, 16, à pág. 2), o Folhateen ouviu o rapaz para saber que motivos o levaram a adotar a abstinência e o que ele pensa sobre as políticas americanas que pregam a supressão do sexo como meio de evitar a gravidez na adolescência e as DSTs (doenças sexualmente transmissíveis).

Rafael considera a política boa. Ficar sem fazer sexo é a melhor opção para não se contaminar. Esse é um dos benefícios da castidade. Mas também há outros, que envolvem a parte emocional. Você fica com domínio de si, diz.

Rafael, que é virgem, diz que controla seus desejos sexuais há três anos e nem se masturba. A idéia de parar de se masturbar veio depois de ter participado de um retiro de jovens promovido pela Igreja Católica.
Embora se sinta bem com a decisão, ele diz que enfrenta preconceito. Assim como eu aceito opiniões contrárias à minha, espero que as pessoas ajam da mesma forma.

Quanto a perder a virgindade, Rafael diz que só o fará quando encontrar a pessoa certa.

Especialistas

Se a posição de Rafael deve ser respeitada individualmente, para especialistas brasileiros em sexualidade e em infectologia, um governo fazer campanha em favor da abstinência é algo temerário.

Pesquisas têm demonstrado a ineficiência de campanhas como essas de cunho moralista, normativo e autoritário, que afastam os adolescentes em vez de aproximá-los da prevenção, de aprender a cuidar da sua saúde sexual e de seu bem-estar, afirma Beth Gonçalves, 50, coordenadora do projeto Trance essa Rede, do Gtpos (Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual).

Os adolescentes necessitam de ações continuadas que possibilitem espaços democráticos de reflexão sobre a vivência da sua sexualidade, a expressão dos sentimentos e dúvidas e a discussão de valores, tabus e preconceitos que dificultam a adoção de práticas seguras, completa.

O médico infectologista do Hospital das Clínicas Ricardo Tapajós, 38, também condena a abstinência. É claro que não fazer sexo é um jeito eficiente de não pegar DSTs, mas, do ponto de vista médico, não se pode reprimir uma coisa que faz parte do funcionamento normal do ser humano.

Você estaria induzindo uma disfunção para prevenir outras coisas, diz. Usar a abstinência como política governamental é irresponsabilidade, pois causa traumas e piora a saúde mental média da população, completa.

Para ele, nessa política há uma outra questão por trás da médica, que chama de policiamento ideológico. Ela é uma política que abarca o discurso da direita moralista americana, que não se dá bem com o sexo. Para um subgrupo da sociedade americana, a única forma possível de sexo é a heterossexual, nupcial, vaginal, monogâmica e fiel. Não dá para levar a sério, conclui.
 
Transar é comum nos namoros e nas ficadas
Enquanto o governo de George W. Bush incentiva a abstinência sexual, um estudo feito pela SexSmarts -uma parceria entre a Fundação Kaiser Family e a revista Seventeen- com 505 jovens americanos de 15 a 17 anos revela uma realidade longe da castidade proposta pelo presidente dos EUA.

De acordo com a percepção dos adolescentes, o sexo oral e as relações sexuais que envolvem penetração são quase tão comuns em relacionamentos casuais quanto em namoros sérios.

O levantamento registrou que 27% dos entrevistados relataram que o namoro quase sempre ou na maior parte das vezes envolve sexo com penetração. Para 24% deles, essa forma de sexo faz parte de um relacionamento descompromissado, as famosas ficadas.

Embora 26% dos adolescentes entrevistados tenham dito que o sexo oral integra um relacionamento mais sério, 23% afirmaram que essa prática sexual é típica das ficadas.

A pesquisa mostrou também que a decisão de fazer sexo não se baseia apenas em conhecer e confiar no parceiro. Mais de dois terços dos jovens disseram que o álcool e as drogas influem na decisão.

 
Com agências internacionais

Crédito:Fatima Nazareth

Autor:Sérgio D´Ávila

Fonte:Folha de S.Paulo