Rio de Janeiro, 23 de Maio de 2019

Swing do bem

Swing do bem
Se você ainda acha que swing é uma perversão para poucos, atenção.
 
Parece mesmo que a onda pegou e está fazendo a cabeça de muita gente bacana por aí.
 
Pelo menos no eixo Rio-São Paulo, quase todo mundo conhece alguém — ou sabe de algum amigo do amigo — que anda aventurando-se no sexo coletivo (tudo com muita discrição, é claro).
 
Em Copacabana, uma casa funciona diariamente. Longe de uma bagunça sexual, há toda uma conduta ética que é seguida à risca pelos freqüentadores — sim, swing é coisa séria!
 
A grife paulista Ellus sabe disso.
 
A promoter Patricia Casé apoiou a decisão de fazer a campanha publicitária da marca numa dessas casas: “ É uma idéia que excita. Há medo no mundo e as pessoas querem se liberar”. Ou seja, o swing é tendência forte para as próximas estações.
 
Travessura (só) para adultos
 
Muito além de uma mera troca de casais, a prática do swing é um grande vale-tudo de beijinhos e abraços e carinhos sem ter fim entre maridos e mulheres (de diversos pares), amigos e, sobretudo, entre anônimos.
 
Uma das premissas desse delírio sexual é, justamente, a completa discrição: dentro e fora dos clubes especializados ninguém conhece ninguém e ponto final.
 
Outra regra é o absoluto respeito à vontade alheia, coisa rara nas noitadas convencionais.
 
Quem não estiver a fim de se jogar na brincadeira (só para adultos, é claro!) pode simplesmente ficar observando, sem sequer ser incomodado.
 
Aliás, os voyeurs são sempre bem-vindos — pois há quem goste mesmo é de platéia.

Para os adeptos, fazer swing é, antes de tudo, uma diversão sem limites, na qual todas as fantasias estão liberadas.
 
As boates, aparentemente comuns, escondem nos andares superiores labirintos escuros, cabines cheias de sofás à meia-luz e até piscinas. São verdadeiras disneylândias para gente grande.
 
No Rio, swing bom é aos sábados
 
O frisson em torno das festas públicas com orgia não é de hoje.
 
Nos Estados Unidos, o swing ganhou fama nos anos 60 e início dos 70, entre a turma mais descolada da Califórnia.
 
Por aqui, a coisa teve impulso em Porto Alegre, onde, há 10 anos, o ex-padre Roque Rauber (quem diria!) fundou a casa, apropriadamente batizada de Sofazão.
 
De lá para cá, o troca-troca saiu do gueto e, hoje, não pára de angariar adesões, cada vez mais requintadas, diga-se.

Na capital paulista, a moda já estourou em clubes sofisticados como Inner Club, Marrakesh ou Image Night, todos em Moema.
 
Em território carioca, afora a boate 2A2, em Copacabana, onde rola swing a semana toda, o negócio ferve mesmo aos sábados, quando as boates swingueiras são exclusivas para casais.
 
É assim no Henriclub Café, em frente à Praia do Pepê, na Barra, no Pigalle, no Recreio, e no Ele e Ela, que funciona dentro da termas Sollarium, na Rua J.J. Seabra, no Jardim Botânico, e atrai a assídua clientela das corridas de cavalo do Jockey Club.
 
Hoje é dia; porque hoje é sábado — entendeu?

Ricardo Gonzalez, diretor de comunicação da grife — e ele mesmo é um confesso fã do sexo grupal.
 
Aos 35 anos, Ricardo descobriu o swing há 10, muito mais como voyeur. Depois, acabou deixando para lá. Desde o ano passado, no entanto, voltou a freqüentar — coisas de visionário.

— Todo mundo que foi à festa no clube de swing adorou. Acho que é um canal para as pessoas conversarem mais confortavelmente — diz Gonzalez. — Os lugares de São Paulo são mais instigantes porque têm mais mistério e suspense. No Rio, a coisa é mais liberada.

Parece mesmo que o clima para lá de sensual das casas de swing é altamente contagioso — e, quem não tomar cuidado, pode até se viciar.
 
Segundo Ricardo, durante a sessão de fotos da grife rolaram “momentos incríveis”.

— Estávamos todos na mesma energia do swing do bem. Foi para valer, com carinho, abraço, beijo na boca. As pessoas têm de viver e fazer o que têm vontade — decreta a modelo Marcelle Bittar, uma das estrelas da nova campanha.

Outra que embarcou na proposta swingueira da Ellus foi a promoter Patrícia Casé, que inclusive deu a maior força para a festa da grife ser realizada numa casa para casais (atenção: isso não quer dizer que ela pratique swing; apenas curte a idéia):

— Acho que esse tema excita, mexe com a imaginação e fala de tesão e de sexo sem ser vulgar. A idéia foi mesmo liberar, soltar a franga, enfim, curtir. Estamos num momento de medo no mundo todo, e as pessoas querem se soltar. As coisas acontecem meio pelo inconsciente coletivo.

Mas, por que, afinal, essa história de swing virou o talk of the town entre a descolância paulista e carioca? Talvez, simplesmente, porque é divertido. E, claro, tem TUDO a ver com sexo — sempre interessante.
 
A dois passos do paraíso
 
À primeira vista, uma boate de swing é igualzinha a qualquer outra.
 
Quer dizer, é bem mais cafoninha (algumas lembram a decoração de motel dos anos 70, com muito espelho e couro vermelho, o que é um bocado compreensível).
 
Mas, até aí, tudo certo.
 
É até engraçado; diferente dos ambientes clean aos quais estamos acostumados. O ritual, sobretudo feminino, começa logo na entrada: mulheres ganham a chave de um armário para guardar a bolsa, assim como nos ginásios da época da escola. É diferente. E divertido.

Bem, a partir daí é dada a largada para a grande aventura swingueira . Preconceitos, claro, devem ficar TODOS do lado de fora. Ali, dá para dançar — apesar de na maioria das casas a trilha não ser lá grande coisa. Os mais inibidos podem ficar nos drinques. Os olhares são exatamente os mesmos de qualquer outro lugar de azaração — com a diferença que vêm tanto de homens quanto de mulheres. Tudo muito morno ainda, não?

Calma. Subindo as escadas vê-se uma espécie de filme pornô ao vivo, e o que é melhor, espontâneo.
 
Nada a ver com aqueles shows eróticos de extremo mau gosto, que não trazem mais nenhuma novidade. Nos labirintos e nas cabines (tem maiores e menores), o mais bacana é que você tem total controle da situação.
 
Claro que dá aquele friozinho na barriga, mas ali, por mais paradoxal que pareça, é lugar de respeito! Ninguém — mas, ninguém mesmo — mexe com você, que só entra na onda se quiser. Senão, pode ficar nos beijinhos e carinhos... ou só mesmo admirando.
 
Que tal?
 
Os dez mandamentos do swing

O CASAL DEVE estar sempre de acordo. Os dois precisam saber que trata-se de uma casa de swing. Não valem surpresas.

A RELAÇÃO TEM que estar boa. Ninguém deve procurar no swing uma solução para crises amorosas.

O RESPEITO à vontade alheia é prioridade. Se alguém preferir só ficar olhando, não deve ser assediado.

NENHUMA FANTASIA deve ser condenada. Porém, claro, só participa quem quer.

NINGUÉM PODE comentar o que rola entre os casais ali dentro para conhecidos.

A SUTILEZA é a alma do negócio. Basta um olhar ou um toque para sugerir a troca. Sentar-se por perto também é um bom começo.

TODOS DEVEM ficar anônimos. Dentro e fora das boates ninguém conhece ninguém. Dar nomes, jamais.

OS HOMENS devem evitar ir acompanhados de mulheres que não sejam esposa, namorada ou amiga. As demais moçoilas devem ficar de fora, ok?

EVITAR SER exibicionista para não causar constrangimento. Sobretudo, homens solteiros.

FICAR pelo menos uma horinha tomando um drinque ou dançando na boate “normal” antes de subir para as cabines do amor.
 
 

Crédito:Fatima Nazareth

Autor:Juliana Pinheiro Mota

Fonte:O Globo