Rio de Janeiro, 18 de Agosto de 2019

Saquarema paz e amor

Festivais de surfe nos anos 70 lembravam Woodstock. Hoje, só os aficionados estão por lá
 

A solitária barraca de camping fincada na praia de Itaúna, em Saquarema, foi desarmada na quarta-feira, véspera do início da etapa brasileira do World Championship Tour, ou WCT, a primeira divisão do circuito mundial de surfe.

Policiais civis, que chegaram de helicóptero para dar total segurança ao evento, desmancharam a única cena que, melancolicamente, poderia lembrar a atitude de milhares de jovens que freqüentavam o balneário da Região dos Lagos na década de 70.

Embalada pelos festivais nacionais do esporte, a cidade foi o cenário isolado onde o estilo hippie de Woodstock se misturava à geração bronzeada do Posto 9, de Ipanema.

Ricardo Bocão, um dos protagonistas da época – e ainda de agora –, viveu de perto as mudanças ocorridas no chamado Havaí brasileiro.

– Existe um abismo entre os festivais de surfe na década de 70 (eles aconteceramde 1974 a 1978) e este WCT.

Há quase 40 anos, o clima era de romantismo, liberdade e rebeldia.

Apenas 20% das pessoas sabiam quem eram os surfistas, o resto queria se divertir. Hoje, todos que vão até lá desejam simplesmente ver ídolos como o brasileiro Teco Padaratz e o havaiano Andy Irons – compara Bocão, que levou o esporte para a TV na década de 80, com o programa Realce.

Durante os lendários festivais, a cidade vivia o seu verão do amor.

A praia de Itaúna ficava tomada por centenas de barracas.

Não existia pousada, restaurante nem chuveiro para os freqüentadores.

A falta de conforto não espantava os milhares de jovens que encontravam ali uma forma de fugir da repressão política da ditadura militar.

O lugar ganhou uma aura mágica ainda maior quando foi comparado aos melhores “picos" de surfe do Rio.

Na orla do Arpoador ao Leblon, por exemplo, ficou proibida, das 9h às 16h, a prática do esporte durante umano e meio, desde que o filho de um militar se machucou ao ser atingido por uma prancha que escapou do pé de um surfista.

Seguir até Saquarema podia representar a idéia de paraíso: liberdade ao lado das melhores ondas do país, numa praia quase deserta.

O local recebia ainda os órfãos das Dunas da Gal – point alternativo emIpanema freqüentado por Caetano Veloso, Jards Macalé, e, claro, Gal Costa – que terminou em 1973 com o desmantelamento do píer.

O surfe interessava menos como esporte e mais por sua capacidade de atrair as meninas bonitas, os músicos roqueiros e elementos marginalizados, como os cabeludos rebeldes e cigarros de maconha.

– Foi naquela época que aconteceu a grande explosão do surfe. Começava-se a descobrir o Havaí. Ao mesmo tempo, a gente andava com atores, músicos e pertencia a uma comunidade que passava a ser muito interessante. Os jornalistas queriam saber de tudo, e o que menos importava era o esporte – lembra Bocão. A imprensa não só cobria com exaustão as competições, como participava.

O Jornal do Brasil, por exemplo, decidiu apoiar os melhores atletas, Pepê Lopes e Cauli Rodrigues.

O ambiente levou Nelson Motta, como ele mesmo conta no livro Noites Tropicais , a escolher a cidade para realizar o festival Som, Sol e Surf em pleno campeonato de 1976.

Motta convidou Rita Lee, o roqueiro capixaba Flávio Spiritu Santo, Raul Seixas, a banda de heavy metal Made in Brazil e a então novata Angela Rô Rô para o campo do Saquarema Futebol Clube.

O primeiro dia de show foi cancelado depois de uma chuva forte alagar a sede do evento.

As apresentações realizadas nos dias seguintes, de acordo com Motta, foram apenas medianas, embora os menos críticos tenham achado nada menos que históricas. – Era muito garoto, mas para a gente funcionava como um Woodstock. Tinha Raul Seixas ensandecido e Flavio Spiritu Santo tocando de ceroula para quase 20 mil pessoas extasiadas – recorda Fred D"Orey, revelação no campeonato de 1977 e atual dono da Totem, loja de moda praia.

O policiamento rígido parece também não deixar muito espaço para a fumaça rolar solta. Desde que inventaram o estrepe, a cordinha para se amarrar a prancha no tornozelo, ninguém corre mais o risco demachucar filho de militar.

Cabeludo deixou de ser sinônimo de rebeldia e o surfista adotou o look raspado.

O rock de Rita Lee soa quase ingênuo perto de grupos como Prodigy e Chemical Brothers.

Os biquínis, no entanto, estão bem parecidos.

 

 

 

Curiosos assistem ao campeonato mundial de surfe, em Itaúna: nada que lembre a rebeldia dos anos 70, quando Raul Seixas e Rita Lee fizeram shows para 20 mil pessoas

Crédito:Anna Beth

Autor:Luciano Ribeiro

Fonte:Domingo