Rio de Janeiro, 17 de Julho de 2018

Amizade entre homem e mulher, pode?

Amizade de verdade, entre homem e mulher, será que dá certo?

Na minha modesta opinião, dá. Apesar das divergências...

Genericamente, para a mulher amizade é quase um sacramento, pudico. Mulher quer ser amiga do amigo por inteiro, de cabo a rabo, mas sem envolver os mesmos.

Para o homem amizade é prêmio de consolação. Se ela não der, vira amiga.

Homem quer ser amigo do peito.

Do peito dela.

Da amiga ou da conhecida.

A amizade verdadeira fica para a que não for dona do peito desejado, para o que não for eleito pela dona dos peitos e/ou para os que não se interessam por peitos.

Ao longo da vida a questão do "será que dá?" é recorrente.

Amizade entre bebês por exemplo, dá. Aliás tudo começa com o "dá". E se não der, o guri de fralda insiste: "dá-dá". E daí ela dá.

Ele sorri. Ela chora arrependida. Quer de volta a tampa da maionese (toda babada) com a qual estava brincando. Ele ignora e põe na boca. Natural.

Homem demora mesmo um pouco mais para amadurecer e discernir o que vale a pena comer. Mas neste ponto da vida isso ainda não atrapalha a amizade.

Bebês viram menino e menina.

Por volta dos seis, sete anos de idade, grandes provas de amizade.

A maior: sem metade dos dentes na boca meninos e meninas se abraçam para tirar fotografia.

E pateticamente banguelas sorriem orgulhosos uns dos outros. Mas algo dá errado. E de repente, não mais que de repente, menina que é menina só é amiga de menina. E menino que é menino nem repara.

Mas os professores na escola reparam.

E introduzem jogos para reaproximar a molecada, reavivar as chamas da amizade.

Quem não se lembra, "pega-pega" - também nas versões "menino pega menina" e vice-versa - "esconde-esconde", "duro ou mole"...

Tudo parte do hoje sabiamente chamado "ensino fundamental".

Um dia os hormônios batem.

Menina estica, menino desafina.

Menino também cresce, aliás, só de olhar.

Ela nem repara.

Ele é pirralho, é super legal... como amigo!

Nesta fase todo mundo é amigo e amiga. Principalmente se for amiga daquela outra que é uma gostosa ou amigo do irmão daquele cara mais velho.

Como a volatilidade de interesses amorosos nesta idade é grande, o círculo de amizades se amplia em progressão geométrica.

Moçinha vira mulher, moçinho encorpa. Desta vez ela repara, definitivamente um homem. Ela instintivamente cogita jogar a amizade ao vento. Ou no banco de trás do carro, se estiver chovendo.

Mas o pensamento trai o instinto.

"Sempre fomos amigos, dar? Nem pensar! Vi ele crescer... Ver o dele crescer?! Não dá..." Enquanto isso, ele insiste em pensamento.

"Será que..." Mas antes de completar a frase, ela já deu.

Para outro!

Assim não dá!!!

E não dando, fica tudo na base da amizade, aliás, como sempre foi.

O tempo passa. Ela passa por vários. Ele passa por várias. Se casam. Com outros. Mas, claro, estão juntos no altar, madrinha de um, padrinho da outra. Todos os quatro unidos pelos laços oficiais de amizade. Mas pouco a pouco o amor se apaga, o casamento dele acaba.

O dela também. Sobra a amizade. Ela vai imediatamente atrás do ombro amigo.

Ele, atrás do que a amiga puder dar.

A esperança é a última que morre...quem sabe agora.

Ele se anima.

Ela confessa aliviada: "é tão bom estar diante de um homem que não pensa só naquilo..."

Doce ilusão a dela.

Amarga desilusão a dele.

Ele suspira, e conformado que não vai dar, sorri seu sorriso amigo e mente. "Jamais. Jamais pensaria em fazer nada que pudesse estragar nossa amizade..."

Ela sorri de volta e o abraça.

Sente seu corpo... e a ficha cai.

No buraco errado.

"Jamais...

Como jamais?!?

Será que eu estou tão caída assim?!?

Será que nunca fui atraente?!?

Ou será que ele me acha burra?

Quer dizer que não sou suficiente pra ele...

Que absurdo!!!"

E solta os braços, dá um passo pra trás e conclui, aquela amizade não está indo a lugar nenhum.

É o fim da picada e assim não fica.

Não dá!

Em casa, se arrepende. Acabar uma amizade assim, depois de tantos anos.

Quem sabe se ela fizer um jantarzinho ele vem, perdoa.

Ela chama, ele vem.

Ela cozinha, eles comem.

Ele fica, ela dá.

Ele definitivamente perdoa.

De manhã dividem o chuveiro.

Mas ela decide continuar com o monopólio do chaveiro.

Ele sai, ela tranca a porta.

Ele pensa em ligar e contar.

Mas para quem?

Pra ela?

Não dá.

Foi ela quem deu!

O tempo passa mais um pouco.

Ele sente falta dela.

Dela antes, dela amiga.

Acaba se afastando, deixando a moça saudosa do amigo.

Eles se encontram para almoçar e decidem não partir para a sobremesa.

Decidem que não dá.

Concordam que sem dar era melhor.

Fim de partida, 1x1.

Dariam tudo para que ainda fosse 0x0.

Ela sai.

Ele fica.

Ele não agüenta, liga do celular.

Ela atende.

Ele pergunta "Posso fingir que não foi com você?"

Ela sem piscar responde "Só se você me contar tudo, com detalhes!!!"

Batem um papão de dar gosto.

E aí deu.

Na base da amizade, felizes para sempre.


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Juliana Peixoto desde pequena teve muitos amigos homens.

Nunca deu para nenhum. Até que apareceu um para quem ela queria dar.

Com esse se casou.

Hoje ele é seu melhor amigo. E também, seu ex-marido.

 

Crédito:Luiz Affonso

Autor:Juliana Peixoto

Fonte:Universo da Mulher