Rio de Janeiro, 27 de Novembro de 2020

Presente de Natal

Existindo ou não família, completa ou incompleta, com buracos ou deixando a desejar, sendo ou não solidária com o seu destino, remetendo ou não a um repouso reparador na cadeia para quem discordar virulentamente de suas diretrizes, somos obrigados a passar a limpo o Natal, sob a benção de assaltos que se multiplicam como o milagre do pão.
 
Porque, juntos, estaremos lá, reunidos em espírito, numa irmandade indissociável como a teoria da prática. Como se fosse possível dissociar a beleza da personalidade, pois que seu interior aflora dos porões da alma nas profundezas do coração, e conquista liberdade quando se desnuda revelando o Belo.
 
Se a vez é da castanha ou da noz para aquietar o espírito natalino, ou mesmo do peru assado ou do presunto Tender, ou se a cereja sobrepuja os fios de ovos, se a rabanada molha o bico melhor do que o panetone, dúvida por dúvida, abandonemos a manjedoura por uns instantes, e alcemos os olhos para o Céu, a buscar nos Reis Magos uma resposta.
 
Se nós não somos matéria em busca de crescimento espiritual, somos espírito em busca de crescimento material, ou se nós não somos humanos começando uma jornada espiritual, somos espíritos começando uma jornada humana.
 
O espírito consumista denigre essa preocupação por não ser palpável e palatável como a ameixa na cabeça do pudim. Com um par de antolhos, precisa de tempo para ser breve e impregnar o mundo com seu despudorado trânsito e maleficência, sujeito a ejaculações precoces nascidas de especulações desarrazoadas que tornam a ganância um crime hediondo. Mantendo inativos os despossuídos de trabalho, tal a competência em extorquir, competência em subjugar, competência em mentir, como convém a um bom agiota.
 
Os nababos perderam completamente a noção de espiritualidade, ao se encastelarem e desprenderem asco ao terem que dirigir a palavra às inúmeras facetas das classes sociais e raças. Um dia perderão a liderança por incompetência, vivos assistirão a decadência precipitar-se no coração do que consideram a coisa mais importante nesse mundo: o dinheiro. 
 
É uma economia de falsa aparência que se comporta como uma imensa companhia “ponto-com”, na precípua função de prestar serviços especulando em detrimento de produzir bens, que exige imobilização de capital e mobilização de mão-de-obra para plantar e colher. Quando o que regula o interesse a ser explorado é a rentabilidade, qual o proveito que se pode tirar do negócio, caso contrário, não vale a pena investir um níquel. E a credibilidade? No fio da navalha, o colapso é iminente na razão direta com que a Al Qaeda pretende detonar as sete maiores cidades americanas com bombas atômicas e pulverizar outras três com varíola em missões suicidas.
 
O fim do mundo, portanto, levaria menos tempo para se descobrir que os relógios suíços já não são os melhores, mas que diabo, se os homens desejam tanto a eternidade, desde que conquistada sob seu domínio e poder! Na velhaca intenção de imiscuir-se na duração infinita do tempo.
Na natureza nada se perde tudo se transforma, ou melhor, tudo se reenvia. Se o presente de aniversário ou de casamento ou de batizado ou de qualquer coisa que se comemore, não é do seu agrado, redirecione a outrem que dará maior valor ou será de grande serventia, principalmente para você.
 
Mire-se em Michael Douglas que, quando subiu ao altar com Catherine Zeta-Jones, distribuiu a torto e a direito os mimos que recebeu, como uma garrafa de champanhe especialíssima com que presenteou um terceiro desavisado, amigo em comum do amigo que pensara que Michael era amigo, a ponto de ter acreditado tanto no seu casamento que escolheu uma safra especial.
 
Essa prática meio antipática é justificada por mães que reclamam do excesso de festas a que seus filhos são convidados, obrigando-os a portarem presentes. No Natal, agendas, canetas e gravatas trocam de mãos ávidas por buscarem uma utilidade mais precisa que condiga com o espírito natalino. Chega-se ao cúmulo de rasgar dedicatórias de livros para representeá-los a incautos letrados de plantão. 
 
A vida é muito curta, temos de cometer todos os erros antes que ela acabe. O mundo é tão pleno de incertezas gerando tanto não saber o que fazer do seu destino que, quando surge um destemido a passos firmes, dão-lhe passagem. Mais do que uma herança, vale o que você pretende fazer desses poucos e generosos pedaços de vida com que nos privilegiam. O Natal, por exemplo.
 
O coração não tem peso, continue a presentear, mesmo sendo difícil encontrar o que agradar àquela alma especial que guarda, tão bem guardado, dentro do coração, o segredo mais sagrado que não compartilha nem com o anjo da guarda. Revelá-lo, equivaleria a não preservar a fantasia que inspira o menino Jesus.
 
 
 

Antonio Carlos Gaio

           

Crédito:Antonio Carlos Gaio

Autor:Antonio Carlos Gaio

Fonte:Universo da Mulher