Rio de Janeiro, 19 de Abril de 2024

Ser ou parecer ser?

83% dos funcionários fingem trabalhar para mostrar que estão ocupados. Muitos funcionários fingem que estão trabalhando para parecer mais úteis, evitar demissão, conseguir uma promoção ou escapar de mais trabalho. A conclusão é de uma pesquisa realizada nos EUA pela empresa americana Visier, que tomei conhecimento por meio do Estadão. Lendo essa pesquisa, tive um susto. E só piora...

Os entrevistados afirmaram que mexem na tela do computador só para não entrar no modo descanso. Além disso, gastam tempo respondendo a e-mails que não exigem uma ação imediata, só para parecerem ocupados.

Entre os principais motivos para fingir que trabalham, 64% citam que é importante para o sucesso profissional e 41% afirmam que querem parecer mais valiosos para a empresa. Ao longo de uma semana média de trabalho, 22% dos entrevistados disseram gastar quase metade do tempo de trabalho (20 horas) em funções que não contribuem de verdade para a empresa.

Um quinto dos entrevistados passam metade do tempo fingindo. E por que isso acontece?

Onde está a sinceridade que tantas empresas listam entre seus valores fundamentais?

Quando vejo algo assim, lembro de ideias que o grande Edward Deming proferia em suas palestras: o sistema entrega aquilo que ele foi projetado para entregar. Se há comportamentos como esse em sua empresa, a culpa não é só do colaborador, mas da estrutura. Pode pesquisar; encontrará várias promoções e elogios a pessoas que optaram por agir dessa maneira.

Se a promoção fosse para o colaborador que termina suas atividades e não tem medo de falar que terminou, a realidade seria diferente. Agora, se parecer ocupado é mais importante do que entregar resultados, seguindo o procedimento definido pela empresa, o resultado será esse: 83% dos colaboradores fingindo.

A pergunta dolorida: o que você prefere?

Se você estiver em uma função na qual fingir trabalhar é bem-visto, pergunto: sente-se feliz com isso? Sem juízo de valor. A sinceridade consigo próprio é importante. Há amigos que admiram a cultura da malandragem e ficariam felizes em trabalhar nesse tipo de empresa.

Lembro-me do estágio. Um colega, gente boníssima, ganhou a alcunha de pirata, de tanto que ele investia nas aparências. Ao se ver cheio de trabalho burocrático e de pouca visibilidade para fazer, dava um jeito de safar-se. Levantava-se, sempre com seu caderno embaixo do braço, e caminhava sério até o corredor e então sumia. Ao ser indagado qual foi seu paradeiro, a resposta era padrão: estava em uma reunião importante, com a área cliente. O chefe, então, interpelava-o sobre o motivo da reunião não estar na agenda. Ele, interpretando um papel de maneira convincente, dizia: "ele me chamou de última hora". E assim ia evoluindo na vida corporativa.

Para mim, adepto ao sincericídio, aquilo era um absurdo. Pela sua personalidade bonachona e pela nossa pouca importância na organização, eu não ligava. Ria, apenas. Mas percebia que, em nossa área, comportamentos daquele tipo eram recompensados.

Outro exemplo era a farra das horas extras. Por que um analista, colega nosso, sempre ia embora às 20 horas? Eu, jovem e cheio de preocupações, não conseguia entender. Dizia: hoje está tranquilo, já entregamos o projeto. Por que não aproveita para ir embora mais cedo? Vemos que deve estar cansado; é possível navegar por sites de compras e notícias de casa, por exemplo.

De tanto perguntar, finalmente eu descobri. Nosso colega gastava muito com seus ternos caros para impressionar a gestão. Isso não combinava com seu ordenado à época. Com as horas extras, segundo ele, fazia 2 salários por ano. O problema, logo percebido pela nova superintendente, foi que o gasto com essas horas era constante ao longo do ano - e isso não significava mais entregas.

Depois de questionar, várias vezes, sobre a real necessidade de ficarem mais tempo no trabalho, ela tomou uma decisão radical: após às 18 horas, todas as luzes do prédio se apagavam e os computadores eram bloqueados. Só ficava aceso o andar da alta gestão, pois esses não "batiam ponto". Exceções, se houvesse, tinham de ser aprovadas pessoalmente por ela. Depois de um ano, a economia gerada só com a malandragem das horas extras foi suficiente para catapultar a carreira da moça. E foi uma marca importante na mudança cultural do banco.

Portanto, reflita: prefere as aparências? Ou é mais afeito ao ambiente de trabalho sincero, no qual você não precisa fingir sobre as coisas?

Sem julgamentos.

 

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Virgilio Marques dos Santos é um dos fundadores da FM2S, doutor, mestre e graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp e Master Black Belt pela mesma Universidade. Foi professor dos cursos de Black Belt, Green Belt e especialização em Gestão e Estratégia de Empresas da Unicamp, assim como de outras universidades e cursos de pós-graduação. Atuou como gerente de processos e melhoria em empresa de bebidas e foi um dos idealizadores do Desafio Unicamp de Inovação Tecnológica.

Crédito:Luiz Affonso

Autor:Virgilio Marques dos Santos

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