Rio de Janeiro, 30 de Setembro de 2020

Mulheres em tratamento de infertilidade devem se vacinar

MULHERES EM TRATAMENTO DE INFERTILIDADE DEVEM SE VACINAR  PARA EVITAR DOENÇAS TRANSMISSÍVEIS NA GRAVIDEZ

 

Publicada em novembro, a recomendação da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva levou em consideração estudo demonstrando que 60% dos ginecologistas e obstetras não pedem o histórico de vacinação das mulheres em idade fértil e apenas 10% recomendam as vacinas do calendário de imunização de adultos. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Imunizações sempre se preocupou com a vacinação das mulheres e gestantes.


Por entender que boa parte das mulheres norte-americanas em idade fértil não está atenta à necessidade de tomar vacinas para manter a saúde e evitar riscos à gravidez, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva publicou em novembro relatório no seu jornal oficial, o “Fertility and Sterility”, recomendando um esquema de vacinação às mulheres em tratamento de infertilidade.

 A entidade frisou que a imunização deve ser feita preferencialmente antes da concepção, porque as grávidas não podem tomar vacinas que contêm vírus vivos, como a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e contra varicela e febre amarela.

Recomendou ainda aos médicos investigarem o histórico das pacientes e, quando necessário, prescreverem as vacinas preconizadas pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças: a tríplice viral, a tríplice bacteriana acelular (tétano, difteria e coqueluche) e as vacinas contra gripe, varicela, pneumococos, hepatites A e B e meningococo.  

A pediatra Isabella Balllalai, vice-presidente da SBIm – Sociedade Brasileira de Imunizações, afirmou que a entidade sempre se preocupou com a vacinação das mulheres e gestantes. “Entendemos que, vacinando a mulher antes da gestação, protegemos também o feto de doenças graves,como a rubéola congênita, que pode ter sérias conseqüências, causar malformações e até a morte fetal”, explica.
A médica lembra ainda que, após o parto, a mãe continua sendo fonte de transmissão para o bebê. “Situações, como a que ocorreu recentemente quando foi ao óbito um bebê de dois meses por coqueluche transmitida pela própria mãe, podem ser evitadas com a vacinação dos pais e de quem mais participar dos cuidados ao bebê“, revela.
O relatório norte-americano ressalta que a imunização antes e durante a gravidez protege a mulher contra doenças potencialmente graves, conferindo ainda resistência a infecções intra-uterinas e imunização passiva ao recém-nascido. A transferência de anticorpos maternos para o feto ocorre ao longo de toda a gestação, atingindo seu ápice nas quatro e seis semanas finais.

 

A pediatra Lucia Bricks, Doutora em Medicina pela USP e gerente médica da Sanofi Pasteur, divisão vacinas da Sanofi-Aventis, ressalta que os anticorpos da mãe vacinada, antes ou durante a gestação, também são transmitidos pelo leite materno. “O ideal é que a mulher se vacine, amamente o bebê e mantenha em dia o calendário vacinal da criança, conforme a orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria”, diz a médica. Benéfica para todas as crianças, a amamentação é essencial aos prematuros. Como nascem antes do tempo, esses bebês têm menores chances de receber os anticorpos da mãe, durante a gestação, que podem ser recebidos pela amamentação. 

A ginecologista Rosa Neme, Doutora em Ginecologia pela USP e especialista em endometriose (a principal doença causadora de infertilidade feminina) explica que "antes de submeter as mulheres a tratamentos para aumentar a fertilidade, é muito importante avaliar seu histórico clinico e de vacinação". Ela afirma que costuma incluir solicitar testes sorológicos para hepatite  B e para rubéola, recomendando as vacinas para as mulheres que não têm imunidade contra essas doenças. A dra Rosa afirma que "Normalmente, os ginecologistas não indicam vacinas e só solicitam testes sorológicos quando a mulher já está grávida e existe contra-indicação para algumas vacinas, como a de rubéola, por exemplo".

O médico Afonso Henriques Alves dos Santos, membro da Associação Médica de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro, reconhece não ser praxe o ginecologista solicitar o histórico de vacinação de suas pacientes. “O ginecologista não é um vacinador. Eu me considero uma exceção”, pondera. Ele acredita que o advento da vacina contra o HPV está mudando esta situação, mas os médicos ainda carecem de informação sobre imunização. “Se houver um movimento forte de informação, este panorama poderá se reverter”, observa. 

A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva argumenta que muitos médicos relutam em vacinar as grávidas porque abortos espontâneos e anomalias congênitas podem ser erroneamente atribuídos à imunização. Para não suscitar essa suspeita, a SBIm recomenda a vacinação das futuras mamães no segundo trimestre gestação, quando o risco de aborto espontâneo é menor.

Os autores norte-americanos afirmam ainda que “a imunização na gravidez deve ser indicada quando os benefícios claramente superarem os riscos”. Eles ponderam que certas circunstâncias podem influenciar a indicação da vacinação da paciente como o serviço militar, viagem a áreas de alta prevalência de doenças, profissões perigosas e a existência de comprometimento do sistema imunológico e  doenças crônicas.

A mulher deve ser imunizada prioritariamente antes da gestação, porque são poucas as vacinas recomendadas durante a gravidez – contra difteria, tétano e gripe. “Se houver necessidade, existem vacinas que podem ser administradas por não conterem vírus vivos”, ensina Lucia Bricks. Essas vacinas são contra a hepatite A, hepatite B, poliomielite inativada, raiva, IPV, pneumocócica 23-valente, meningocócica conjugada ou polissacarídica e coqueluche acelular.

 

CALENDÁRIO VACINAL

 

Confira as vacinas recomendadas para mulheres em idade fértil e as mulheres que  fazem tratamento contra infertilidade, que nunca tiveram essas doenças ou foram vacinadas. É preciso esperar um mês entre a administração das vacinas com vírus vivos  e a concepção.


·         Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) –  A rubéola em mulheres grávidas pode causar malformações fetais como surdez, catarata, glaucoma, problemas cardíacos e neurológicos.
·         Varicela -  Quando atinge a gestante, pode provocar de 500 a mil lesões pelo corpo. Se o contágio for no primeiro trimestre da gravidez, pode causar desde a malformação do feto (atingindo membros, órgãos e o cérebro) até a morte dele. Se a mãe contrair varicela dias antes do parto, o bebê corre o risco de nascer com  varicela neonatal.
·         Gripe – As  gestantes têm cinco vezes mais chances do que o restante da população de ter pneumonia derivada da gripe. A vacina injetável, feita com  vírus inativados (mortos). Mulheres que estarão grávidas, na época de maior circulação dos vírus, devem ser vacinadas, sempre que possível,  a partir do segundo trimestre da gravidez.
·         Tríplice bacteriana acelular para adultos – (dTap - difteria, tétano e acelular coqueluche) – A futura mamãe e os adultos que vão ter contatos com o bebê (avós, tios e babás) precisam se vacinar contra a coqueluche para protegerem a si próprios e não transmitirem a doença à criança. A coqueluche é mais grave em crianças menores de seis meses, porque ainda não receberam o esquema básico de três doses da vacina. Em lactentes jovens, a doença é capaz de causar pneumonia, insuficiência respiratória aguda e convulsões, que podem levar à internação e provocar paradas respiratórias, com risco de deixar seqüelas mentais e motoras por falta de oxigenação do cérebro. Hoje se recomenda a aplicação da dTpa em lugar da dose de reforço da vacina contra difteria e tétano (dT) em adolescentes. Mulheres que receberam a dT há mais de dois anos podem tomar a dTap, antes da gestação ou após o parto, para evitar a doença e a transmissão ao bebê. 
·         Hepatite A – Com a melhoria das condições sanitárias no Brasil, boa parte dos jovens cresceu sem ter contato com o vírus da hepatite A, transmitido ao ser humano pela ingestão de água e alimentos contaminados. Dada a essa situação, recomenda-se aos ginecologistas solicitarem os testes sorológicos para verificar se a paciente é ou não imune à hepatite A. As mulheres suscetíveis devem ser vacinadas antes da gestação.
·         Hepatite B – É recomendada para homens e mulheres porque a doença é endêmica em boa parte do Brasil. A portadora de hepatite B pode transmitir o vírus ao bebê durante o parto. Até 90% dos filhos dessas mães correm o risco de se tornarem  portadores crônicos e ter seqüelas como cirrose e câncer hepático. Embora esteja no calendário oficial de imunização, a cobertura ainda é baixa. Por isso, é importante verificar a situação vacinal da gestante e imunizar todos os recém-nascidos de mães, que não sabem se são imunes à doença, 24 horas após o nascimento.
·         Pneumocócica 23 valente - É indicada apenas a mulheres predispostas a  doenças pneumocócicas invasivas - com doenças crônicas cardíacas, pulmonares, renais, diabetes, imunodeficiências e desprovidas de baço (por problemas congênitos, pós-cirúrgicos e doenças hemolíticas, como anemia falciforme). Desde outubro de 2008,  o Comitê Assessor em Práticas de Imunização dos Estados Unidos passou a recomendar a vacina aos asmáticos e fumantes, entre 19 e 64 anos, porque o tabagismo aumenta o risco de doenças pneumocócicas invasivas.
·         Meningócica – No Brasil, a vacina meningocócica conjugada contra meningococo C tem sido recomendada em diversas regiões. Nos Estados Unidos, prefere-se a vacina conjugada contra meningococo A, C, W135 e Y, por seu maior espectro de proteção. Em breve, a Sanofi Pasteur vai introduzir no Brasil essa vacina, indicada a viajantes a áreas endêmicas (Arábia Saudita e região sub-saárica da África). A vacina polissacarídica A, C é indicada a grupos de risco (falta de baço, imunodeficientes) ou, durante surtos e epidemias, para esses sorogrupos, maiores de dois anos de idade.

 

 

Crédito:Cris Padilha

Autor:Nora Ferreira

Fonte:Universo da Mulher